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  • Rapha Vicente

Da importância dos filósofos também assistirem desenhos animados



Filósofos assistirem desenhos animados, como assim? Desenhos foram feitos para crianças e não adultos, certo? Filósofos lêem livros, assistem filmes alternativos, escutam música clássica e gostam de diálogos profundos, portanto, desenhos não fazem parte do repertório de filósofos. Desenhos são bobos, supérfluos e não apresentam bons conteúdos, porque, então, filósofos assistiriam desenhos ou qualquer tipo de produção pensada em agradar crianças?

Primeiro, existem inúmeros preconceitos aqui e precisamos superá-los. O primeiro deles é: "desenhos são bobos, supérfluos e não apresentam bons conteúdos", de fato, alguns desenhos realmente são bem rasos e suas produções têm, meramente, o objetivo de vender produtos ou brinquedos, apresentam roteiros fracos, clichês e padrões normalmente aceitos pelo grande público. Algumas produções, no entanto, têm origem muito diferente, possuem inspirações nas artes plásticas, literatura e filosofia, com mensagens profundas que servem tanto as crianças como aos adultos, atravessando e encantando gerações com seus conceitos e estilos. É o caso, por exemplo, de personagens como a Mulher maravilha, grande sucesso dos quadrinhos, desenhos, cinema e brinquedos, idealizada pelo psicólogo William M. Marston como símbolo do feminismo. Além disso, filósofos devem diversificar no seu repertório, conhecer outras linguagens, refletir sobre elas, seus conteúdos, formas e influências, sem julgamentos prévios ou preconceitos, expandindo seus horizontes e ampliando seus olhares.

Ressalta-se que, filósofos também atendem crianças e adolescentes o tempo todo, seja no "consultório" de filosofia ou na sala de aula, um público que dificilmente conhece Platão, mas que certamente já assistiu ou ouviu falar em Naruto. Filósofos assistirem a desenhos animados vem da necessidade de dialogar melhor com este público, de conhecer seus referenciais, interesses e preferências. Além disso, conhecer esta realidade é fundamental para pensar a infância na contemporaneidade, já que tantas crianças e adolescentes passam horas do seu dia, muitas vezes desacompanhadas, assistindo a essas produções. Solitárias em seus quartos, talvez no conforto de seus apartamentos, enquanto a mãe prepara o almoço, o pai está no trabalho, ou ambos no trabalho e a criança com a avó, que nem sempre possui disposição para pensar novas brincadeiras, que nem sempre confia nos seus preciosos netos brincando na rua, correndo o risco de serem assaltadas, violentadas ou sofrerem um acidente. Não importa a situação, crianças em geral assistem ou conhecem esses desenhos, seja por elas mesmas ou pela convivência com outras crianças ou adolescentes. Portanto, assistir a desenhos animados nos ajudariam a nos comunicar melhor com as crianças, compreender o que gostam, pensam e sentem, já que tais conteúdos também fazem parte de sua "dieta" cotidiana, alimentando o seu imaginário e inspirando suas ações. Por isso, é tão importante que filósofos também conheçam desenhos animados, que contribuam com suas provocações e problematizações, ajudando, inclusive, para que essas crianças saibam discernir o que consomem, saibam olhar de maneira crítica o que assistem, a reconhecer ideologias presentes nessas produções, os preconceitos difundidos, seus interesses comerciais, políticos e religiosos. Se filósofos também começarem a assistir jovens titãns em ação, pepa pig, turma da Mônica, liga da justiça, Frozen, Dragon ball e tantos outros desenhos, e observarem o que eles têm a dizer sobre o papel das mulheres, daquilo que seus personagens trazem sobre justiça, felicidade, igualdade etc. Certamente compreenderão melhor seus filhos, alunos, orientandos ou qualquer outra criança e adolescente a sua volta, assim como, na ajuda aos pais ou responsáveis, seja na escolha e análise desses desenhos, como na manutenção desse mercado, capaz de render milhões para àqueles que, nem sempre, estão preocupadas com a formação ética e moral dessas crianças, fazendo circular produções de caráter duvidoso e até perigoso.

Quem sabe, tais desenhos não façam parte de aulas ou materiais didáticos? Tornando-se ótimos exemplos para uma discussão sobre ética, estética, política ou lógica? No consultório, talvez ajude a compreender melhor os contextos familiares, o papel do imaginário na infância, enfim, o cotidiano de crianças e adolescentes, que muitas vezes é pouco observado e respeitado. Talvez, um desenho animado funcione melhor do que outra estratégia para se comunicar com a criança ou o adolescente, seja sobre filosofia ou qualquer outra coisa, diminuindo a distância entre o mundo dos adultos, que é chato e cheio de regras, para um mundo cheio de fantasia, diversão e brincadeira. Talvez, o desenho animado sirva como excelente recurso pedagógico aos professores, deixando seu lugar de "inimigo" para aliado da reflexão e educação de crianças e até jovens. Por fim, acredito que, antes de filósofos atenderem crianças, deveríamos, primeiro, nos "repertoriar" com conteúdos, não somente aqueles conhecidos no universo da filosofia, mas, também, aqueles que são conhecidos pela própria criança, neste caso, desenhos animados. Desta forma, assistindo a esses desenhos, ficará mais fácil iniciar certas discussões com crianças, por meio de temas e conteúdos que atravessam tanto a filosofia como tais produções. Por exemplo, discutir sobre o certo e o errado a partir de um desenho de super herói, ou, quem sabe, analisar sentimentos e emoções de personagens, histórias de vida e fatos do cotidiano que sejam semelhantes aos da criança e de um modo fácil e acessível introduzir a criança ou o adolescente no universo da própria filosofia.


Por Leandro Raphael Vicente

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