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Da importância do diálogo com crianças e adolescentes sobre conteúdos presentes nos desenhos animado




Por Leandro Raphael Vicente



Qual é a importância de dialogarmos com crianças e adolescentes sobre conteúdos presentes nos desenhos animados? Outro dia, eu e meu filho de 5 anos estávamos assistindo juntos ao desenho “Pepa pig”, no decorrer da estória a personagem Pepa estava num parque com outros bichos e se divertiam bastante. Atentamente, meu filho me fez a seguinte pergunta “Papai, porque a Pepa está sempre brincando com os seus amigos?”, percebi que ele também gostaria de ficar mais tempo com os amigos dele e tive que explicar sobre as dificuldades do dia a dia, de que nem sempre as agendas dos pais e responsáveis eram compatíveis, de que no desenho, por tratar-se de uma fantasia, os personagens não apresentavam as complexidades da vida real e que não era possível organizar tantos encontros como ele via no desenho.

A situação com meu filho me fez refletir sobre o conceito de temporalidade presente naquele desenho, percebi que todas as situações apresentadas na Pepa não correspondiam as noções reais de tempo que vivemos em nosso dia a dia, obviamente por trata-se de um desenho animado e que acontece num período de 15 min. Se, por exemplo, a Pepa resolve fazer um bolo, e isso já aconteceu em outro episódio, tal ação jamais ocorrerá no mesmo período em que nós o fazemos, pois precisaremos comprar os ingredientes no mercado, organizar o espaço da cozinha, realizar as misturas necessárias e esperar o tempo para o bolo assar. Refletir, junto com a criança, sobre o “tempo das coisas” é de grande importância para que suas noções de realidade não se confundam àquelas apresentadas na ficção e que assim compreendam que esperar e ter paciência faz parte da vida comum, que as coisas não acontecem como num “piscar de olhos” e de forma imediata como gostaríamos que fossem.

Nos últimos tempos, tenho percebido que o diálogo com crianças e adolescentes sobre os conceitos apresentados nos desenhos animados é de grande valia, já que tais desenhos fazem parte da infância contemporânea e que seus conteúdos também precisam ser problematizados. Enquanto professor de filosofia do ensino médio, tenho percebido a importância do acompanhamento e orientação dos pais, professores e profissionais ligados a infância quanto a isso. Não foram raras as vezes em que fui interrompido em sala de aula por estudantes, que discutiam paralelamente sobre conteúdos presentes em desenhos animados, tais como: Super heróis, animes japoneses, cartuns etc. Todos, muito mais interessantes do que minhas explicações a respeito dos conceitos kantiano de juízos a piori e juízos a posteriori. E foi numa dessas aulas que resolvi inovar, trazer algo diferente para os alunos, ou seja, discutir conceitos filosóficos a partir dos desenhos que eles mais gostavam, num diálogo reflexivo acerca de seus conteúdos em paralelo a filosofia.

Dentre algumas experiências com alunos do ensino médio, destaca-se uma discussão em sala de aula sobre o personagem Thanos da Marvel e as suas estratégias para conseguir as “joias do infinito” e assim aniquilar metade da população do universo, estória que pode ser conferida nos desenhos, quadrinhos e no grande sucesso dos cinemas Vingadores: Guerra infinita. Em meio as discussões relativas ao campo da ética e política com os jovens, a respeito do bem e do mal e a conquista do poder, sugeri a leitura de trechos da obra de Maquiavel (O príncipe), algo que possibilitou uma leitura crítica das ações do personagem Thanos e, também, uma ilustração das ideias presentes no pensamento do filósofo renascentista. Tal experiência foi de grande importância para perceber que era necessário considerar a realidade dos jovens em sala de aula, ou seja, seus interesses, gostos, questões e próprio o universo midiático e virtual no qual estão inseridos. Lembrei-me das leituras de Paulo Freire a respeito de uma educação libertadora, de que ensinar não é, meramente, transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção.

Todas essas experiências ligadas a analises e diálogos sobre conteúdos e conceitos presentes nos desenhos têm se mostrado promissoras enquanto recurso pedagógico, me provocado a refletir sobre a maneira como estamos acostumados a ensinar e abordar conteúdos escolares, de como é necessário abrir espaço para dialogar sobre conteúdos que os estudantes costumam acessar. Dialogar, portanto, sobre tais produções, sobre como são feitas, suas mensagens, suas noções de temporalidade, justiça, verdade, poder, felicidade etc., que tanto despertam interesses e gostos, são fundamentais no processo formativo de crianças e adolescentes em cidadãos críticos, autônomos e plenos. Mas, seria o caso de proibir o acesso? Aliás, como fazer isso? Acredito que este não seja o caminho, mas, sim, o diálogo.

Desta forma, tenho pensado que seja necessário conhecer aquilo que as crianças gostam, prestar atenção no que elas assistem, discutir criticamente com os mesmos, sem subestimá-las, sobre os objetivos mercadológicos, as mensagens ideológicas, racistas e machistas, presentes nestas produções, num diálogo aberto, atento, que inclua a escuta das crianças e adolescente, sem críticas e preconceitos, apenas escuta, algo que poderia, inclusive, colaborar para uma educação midiática.

Neste sentido, desconsiderar tais conteúdos e suas influencias na educação podem trazer grandes prejuízos no desenvolvimento saudável de crianças e adolescente, algo que precisa ser examinado com calma. Ou seja, ignorar o que as crianças e adolescentes assistem na televisão ou celular, não é somente ignorar o conteúdo presentes nos desenhos mas, também, ignorar as próprias crianças e adolescentes, pois não conhecer seu mundo, suas referências, seu passatempo, seus desenhos, é não compreender o modo como elas se estruturam, pensam, falam e até mesmo significam as coisas. Aliás, estamos prestando atenção nas crianças, adolescentes, em seus processos formativos e no que elas assistem na TV e/ou celulares?

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