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  • Rapha Vicente

A paciência, o Hulk e os estóicos

“Mais penosas são as consequências da ira do que as suas causas.”

Marco Aurélio

INTRODUÇÃO

Em tempos difíceis como estes, que nos exigem muita paciência e coragem, capaz de colocar alguns em verdadeiro desespero e outros em total descontrole emocional, torna-se fundamental filosofar. Exercitar o autoconhecimento, uma busca pela compreensão da realidade e uma reflexão sobre o agir, é o que mais precisamos fazer quando nossos referenciais desaparecem, novas circunstâncias surgem e tudo parece confuso e obscuro. O coronavírus impôs um novo ritmo de vida, nos forçou ao isolamento social e fez revelar outra grande doença em nosso país, a desigualdade social. Enquanto algumas famílias se isolam em seus apartamentos equipados, celebridades se protegem em grandes casas luxuosas, com diversas opções de lazer e entretenimento, outras famílias precisam dividir seus pequenos lares com dezenas de pessoas e muitas outras dificuldades, tais como: Falta de alimento, dinheiro, desemprego, etc. Nos provocando a refletir, por exemplo, sobre “Como manter a calma diante desta calamidade?”, “seria o caso de nos transformarmos no Hulk e sair esmagando tudo o que encontramos pela frente?”, “seria o caso de ficarmos passivos, assistindo a tudo em silêncio?”, “como lidar com tudo isso?”

Com o objetivo de refletir sobre nós mesmos e a realidade que nos cerca, dando enfoque para a paciência e o controle das emoções em tempos de crise, gostaria de apresentar a filosofia estóica e os seus ensinamentos, mas de um jeito diferente e bem humorado, a partir do super-herói Hulk, que é um grande personagem do universo Marvel.

“Hulk esmaga!”

Hulk é um personagem dos quadrinhos que surgiu em 1962, criado por Stan Lee e Jack Kirby, um herói que foge a diversos padrões pré-estabelecidos e que apesar de possuir super-força, resistência e outras capacidades extraordinárias, perde completamente a sua consciência e poder de raciocínio quando se transforma. Segundo Brian J. Robb, em seu livro “A identidade secreta dos super-heróis”, que narra as histórias e origens dos maiores sucessos das HQ’s:

...Hulk, inspirado no sucesso do Coisa, o personagem mais popular do quarteto fantástico. Lee – tendo ideias sobre a criatura de Frankstein e Quasímodo – decidiu criar outra figura parecida com o Coisa pela qual os leitores pudessem sentir empatia. “Eu decidi que também era melhor imitar algo de O médico e o monstro, e nosso protagonista constantemente se transformaria da identidade normal para o alter ego super-humano e vice-versa”, disse Stan Lee. (p.138, 2017)

Na história original dos quadrinhos, o Dr. Robert Bruce Banner é um grande cientista que durante suas pesquisas foi atingido por raios gama e assim acaba transformando-se numa terrível criatura verde. Hulk é praticamente invencível, possuí a maior força física entre os super-heróis, consegue dar saltos enormes e resistir a praticamente todos os tipos de ataque.

Quanto mais irritado Hulk fica mais poderoso ele se torna, porém esta pode ser considerada a sua maior fraqueza, pois é justamente neste momento em que Bruce Banner perde o controle de si e se torna uma fera selvagem. Na forma de “herói”, Hulk resolve problemas que somente ele é capaz de fazer, por isso é tantas vezes convocado pelos vingadores em suas missões. No entanto, vive um grande conflito entre a sua racionalidade e sua agressividade, principalmente quando se torna Hulk em momentos inoportunos, onde acaba colocando a vida de pessoas inocentes em risco e destruindo tudo a sua volta.

As histórias de Hulk são bem divertidas e já renderam muitas aventuras nos quadrinhos, desenhos animados, cinema, games etc. Um grande sucesso do universo dos super-heróis, que carrega consigo uma profunda reflexão acerca dos limites humanos e de como lidamos com a nossa agressividade. Além disso, o desenho pode servir como ótima ferramenta pedagógica para pais e professores dialogarem com crianças e adolescentes acerca de assuntos relacionados a ética, moral e autoconhecimento. Segundo Gelson Weshenfelder, que possuí Doutorado em pesquisas relacionadas aos quadrinhos de super-heróis:

“As HQ’s abordam questões referentes a ética, a responsabilidade pessoal e social, a justiça, ao crime e ao castigo, as emoções humanas, a identidade pessoal, a alma, a noção de destino e ao sentido de nossa vida. Perpassam por temas das ciências e da natureza, pelo papel da fé na aspereza deste mundo, pela importância da amizade e o significado do amor, bem como pela natureza de uma família.” (p.3 e 4, 2011).

Desta forma, somos levados a pensar sobre como o herói lida com sua agressividade, não somente o Hulk, mas, também, crianças, jovens e adultos. Existiria algum momento em que “quebrar tudo” é a única ou melhor saída? E, como administrar nossas emoções em tempos de crise, como esta que estamos passando? Para estas questões, gostaria de apresentar os filósofos estóicos.

O estoicismo

O estoicismo foi uma corrente filosófica do período helenista, segundo (ABBAGNANO, 2007) foi fundada por Zenão de Cício. Nesta corrente, os filósofos defendiam como seu maior ideal a ataraxia (imperturbabilidade da alma) e a razão, portanto, serviria como instrumento para se atingir a serenidade. Os estóicos buscavam em suas reflexões uma sabedoria que os conduzissem para o bem estar da alma, hábitos que superassem as paixões humanas e o descontrole das emoções.

Quanto a cada uma das coisas que sucedem contigo, lembra, voltando a atenção para ti mesmo, de buscar alguma capacidade que sirva para cada uma delas. Caso vires um belo homem ou uma bela mulher, descobrirás para isso a capacidade do autodomínio. Caso uma tarefa extenuante se apresente, descobrirás a perseverança. Caso a injúria, a paciência. Habituando-te desse modo, as representações não te arrebatarão. (EPICTETO, 2012)

Dentre as diversas causas que nos afetam e que nos tiram a serenidade, a tentativa de controlar tudo a nossa volta é uma das maiores causas de sofrimento, ou seja, a falta de capacidade de não saber separar aquilo que é nosso e aquilo que não nos pertence, aquilo que depende de nossas escolhas, que é de nossa responsabilidade e aquilo que não é. Por um lado, devemos aceitar que não somos capazes de controlar tudo, que não temos superpoderes, mas aquilo que depende de nós é necessário agir da melhor maneira possível.

Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá (EPICTETO, 2012)

Desta forma, os homens deveriam abandonar suas culpas infundadas, suas insatisfações com o que não podem controlar, suas preocupações com o que há de vir etc. (NICOLA, 2005). Evitar o desejo de agradar a todos e de controlar tudo ao seu redor, como se fosse possível impor sua vontade em relação a vontade dos outros. Os homens deveriam buscar aquilo que os leva para a “paz de espírito” e evitar aquilo que os afetem negativamente, os perturbem, traga sofrimento e aborrecimento.

Ser igual ao rochedo contra o qual, sem interrupção, se quebram as ondas. Este se mantém firme, e em torno dele adormece a espuma da onda. “Sou infeliz, porque isso me aconteceu”. Mas não, ao contrário: “sou feliz, porque, devido ao que me ocorreu, persisto até o fim sem aflição, nem perturbado com o presente nem assustado com o futuro”. (AURÉLIO, 2011).

Neste sentido, caberia ao Hulk e a todos os homens que se deixam guiar pela cólera e outras paixões da alma, refletirem sobre como conduzem suas vidas, se fizeram da violência um hábito ou se se trata de um desequilíbrio na forma como administra o seu repouso, sua alimentação, lazer, trabalho, estudo etc. Necessitariam, portanto, buscar a calma, o exercício da paciência e novas formas para lidar com sua agressividade, deixando-a de lado. No entanto, é desejável que todos nós, inclusive o Hulk, nos tornemos estóicos? Resolveríamos todos os nossos problemas assim, na base da paciência? Em que situações devemos agir como uma fera? Quais seriam as consequências de agir de uma forma ou de outra? Existe alguma dosagem certa, qual? O que você acha disso?

Autor. Leandro Raphael


Imagem feita por Rodney Berthault

Referencial bibliográfico:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

AURÉLIO, M. Meditações / Tradução de Thainara Castro. – Brasília: Editora Kiron, 2011.

EPICTETO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012.

NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de filosofia: das origens a idade moderna, São Paulo: Globo, 2005.

ROBB, Brian J. A identidade secreta dos super-heróis: a história e as origens dos maiores sucessos das HQs: do Super-Homem aos Vingadores/ Rio de Janeiro: Valentina, 2017.

WEASCHENFELDER, Gelson Vanderlei. Filosofando com os super-heróis, Porto Alegre, 2011.

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