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  • Rapha Vicente

A orientação filosófica e suas etapas

Atualizado: Set 19


Separei alguns pressupostos, instrumentos e etapas de nosso trabalho com a orientação filosófica para facilitar a compreensão de como funciona o processo e de que maneira o nosso atendimento pode oferecer autoconhecimento e reflexão crítica sobre os diferentes tipos de questões existenciais.

A filosofia é a arte de criar conceitos

Deleuze


Repertório filosófico

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

René Descartes



A orientação filosófica se faz a partir de diferentes métodos, instrumentos, referenciais e conceitos advindos de pensadores como: Sócrates, Aristóteles, Descartes, Kant, Nietzsche, Buber, Wittgeinstein, Sartre, Foucault, etc. Trata-se, portanto, de um tipo de atendimento que exige domínio e repertório filosófico qualificado. Desta forma, somente profissionais com formação acadêmica em filosofia ou consagrados por notório saber podem exercer esta prática, como estabelece a CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), documento instituído pela Portaria nº 397, de 10.10.2002. que retrata a realidade das profissões do mercado de trabalho brasileiro.



Sendo assim, o profissional de filosofia faz uso de diferentes “ferramentas” em seu trabalho, tais como: Investigações e levantamento de dados, reflexões e análises de discursos, perguntas e provocações filosóficas etc. Aplicando assim, conhecimentos de seu repertório com o objetivo de pensar junto com o outro sobre diferentes questões de seu cotidiano.



Interdisciplinaridade

A consciência da complexidade nos faz compreender que não poderemos escapar jamais da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total: 'a totalidade é a não verdade'.

Edgar Morin

A Filosofia, diferente das demais ciências, não possui um objeto específico de conhecimento, mas trata-se de uma forma de conhecer o mundo e a si mesmo. Além disso, estabelece diálogo constante com outras áreas, reconhecendo seus limites, especificidades e contribuições. É comum, inclusive, que as pessoas façam a orientação filosófica em paralelo com outros tipos de acompanhamento, tais como: Psicólogos, médicos, terapeutas ocupacionais etc. Em certos casos, o próprio filósofo sugere tais tratamentos.


Escuta filosófica

Escuta e será sábio, o começo da sabedoria é o silêncio.

Pitágoras

Por meio da escuta filosófica, que foca na maneira como o outro pensa, constrói suas ideias, desenvolve seus raciocínios, argumentos, hipóteses, etc. O filósofo tenta compreender o modo como o sujeito se estrutura e se relaciona com o mundo, suas questões éticas, estéticas, epistêmicas, metafísicas, políticas e lógicas. Desta forma, o filósofo possibilita a reflexão crítica e o aprofundamento do olhar sobre a realidade, apresentando novas possibilidades e respeitando a autonomia dos indivíduos.


Contexto e singularidade

Quando alguém conhece a si mesmo está conhecendo a singularidade e não a totalidade do homem. Conhecer a nós mesmos não é a garantia de conhecer os outros.

Michel de Montaigne

Da mesmo forma que realizamos uma leitura filosófica, que considera os contextos históricos no momento da compreensão e entendimento dos textos escritos pelos pensadores, salientando que cada pensador é único e, portanto, tem o seu próprio modo de pensar e expressar conceitos, a orientação filosófica também considera a história de cada pessoa (Idade, lugares, acontecimentos, circunstâncias, relações, percepções etc.) e como tudo isso se relaciona ao longo de sua vida até o momento presente. Desta forma, sua percepção da realidade e de si mesmo, sua forma de agir e se relacionar com os outros, suas experiências etc. Fazem com que tal pessoa seja, também, única, singular e autora de sua própria narrativa.




O processo...




Etapa 1

Questão inicial

Filosofar é como tentar descobrir o segredo de um cofre: cada pequeno ajuste no mecanismo parece levar a nada. Apenas quando tudo entra no lugar a porta se abre.

Ludwig Wittgenstein

A questão inicial é aquilo que leva a pessoa para a orientação filosófica e, justamente, aquilo que conduz o filósofo para a sua investigação. Porém, nem sempre, a questão inicial é a mesma que a questão última, ou seja, no decorrer do processo é possível que surjam mudanças, movimentações no pensar e agir, levando-nos para novas descobertas e outras perguntas. Neste sentido, questões relacionadas ao trabalho, as emoções, aos relacionamentos, buscas, aprendizagem etc. Podem surgir por diferentes razões e motivos, algo que nos impede de saber previamente ou de estabelecer padrões para pessoas e questões.


Etapa 2

História de vida

Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.

Sêneca


Ao contar sua história, o orientando precisa organizar seu pensamento, é forçado a lembrar de coisas esquecidas, escutar-se a si próprio e assim, fornece informações essenciais para o filósofo. Desta forma, busca-se compreender como, em que circunstâncias e contextos, se constituiu ao longo do tempo, possibilitando obter-se os dados necessários para a compreensão da questão do orientando. Observa-se aqui: Fatos importantes, linguagem e seus significados, buscas, percepções, modos de pensar e agir no mundo, etc.


Etapa 3

Análise e entendimento

O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.

Aristóteles


Ao contar sua história, o orientando faz recortes da realidade, daquilo que julga ser mais importante, revela seus princípios e valores, conceitos, enfim, dados que precisam de maior esclarecimento. O filósofo, nesta etapa, realiza perguntas pontuais, capazes de trazer maiores detalhes e ajudar o orientando em seu processo de narrar a história. Por exemplo: “Me fale sobre a escola...”, “me conte sobre o período entre os 10 e 12 anos...” Desta forma, solicita-se ao mesmo que conte mais sobre trechos e fases específicas de sua vida, o objetivo é compreender conexões e relações.


Etapa 4

Aprofundamento e referenciais


A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.

Søren Kierkegaar

Qual é o significado de certos termos? Como se formaram? Quais são as raízes de certas práticas e formas de pensar? Neste momento, o filósofo realizará perguntas de enraizamento, que possibilitarão o aprofundamento e a definição de conceitos, percepções, raciocínios, contradições, modos de agir e estar no mundo. Por exemplo: “O que é a morte para você?”, “Qual é a coisa mais importante em sua vida?” etc. Tais perguntas devem ser feitas com o devido cuidado, já que podem provocar movimentos existenciais importantes para o orientando, o filósofo deve respeitar a autonomia e o bem estar do mesmo.



Etapa 5

Mapa conceitual e autoconhecimento

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo.

Sócrates

Nesta etapa, o filósofo já possui condições para realizar um mapa conceitual do orientando, traçando conexões entre ideias, atitudes, valores, relações etc. Este momento permitirá uma reflexão de si e um exercício de autoconhecimento. Obviamente, o mapa conceitual não pode ser encarado como “rótulo”, “diagnóstico” ou “verdade absoluta”, trata-se, somente, de um panorama geral das questões trazidas ao longo do processo, um “desenho” daquilo que se disse durante as consultas para que se possa ter uma visão ampla da situação e dos possíveis caminhos para o orientando pensar melhor e tomar suas decisões com clareza.


Etapa 6

Caminhos possíveis...

Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia.

Epicuro


Mesmo sabendo para qual caminho seguir, nem sempre é fácil tomar decisões e prosseguir em uma jornada. Em certos casos, o orientando deve aprender novas habilidades, desenvolver roteiros, saber esperar a hora certa, aproveitar oportunidades, expressar sentimentos etc. Tudo isso, será exercitado e acompanhado junto com o filósofo que lhe auxiliará neste processo...


Etapa 7

Exercitando a autonomia e o bem estar

Não se ensina filosofia; ensina-se a filosofar.

Immanuel Kant

Os contos de fadas nos ensinaram a buscar e encontrar o “final feliz”, porém entre a fantasia e a realidade existe uma grande diferença. Neste sentido, o filósofo não é capaz de prometer por “finais felizes”, tão pouco se pode comprometer-se com soluções fáceis para problemas difíceis. Entretanto, o exercício do autoconhecimento e da autonomia permitirá que o indivíduo desenvolva novas habilidade, obtenha maior clareza e tenha maior consciência de si e daquilo que o afeta, positivamente ou negativamente. Neste sentido, a orientação filosófica permitirá o aumento de graus de liberdade, autoconhecimento e reflexão sobre o mundo em que vive, oferecendo instrumentos novos para que ele mesmo busque por sua felicidade e bem estar na convivência com outras pessoas.


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